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Concert Season

Planeta Vinil • Teatro da Rainha no O'culto da Ajuda

from 28 04 2021
to
30 04 2021

O'culto da Ajuda

Texto - Cecília Ferreira
Encenação – Fernando Mora Ramos
Cenografia – Patrícia Guimarães
Interpretação – Cibele Maças, Mafalda Taveira, Fábio Costa e Nuno Machado


Uma criança ruiva, um peixe-napoleão, um escaravelho e uma galinha poedeira fogem da Extinção. Não sabem ao certo quem ela é, mas, pelo tom grave com que todos pronunciam o seu nome, e cada vez com mais aperto, estão certos de que se trata de uma criatura monstruosa e assustadora, que está a aproximar-se deles com largas e demolidoras passadas. Os quatro não decidiram fugir juntos, foi o caminho que os juntou. E nem sempre foi fácil a sua convivência, mas seguiram, guiados pelos seus instintos e convicções, em direção à Porta do Fundo do Mundo, que lhes permitirá aceder, acreditam, ao Avesso – aquele que está limpo da Extinção e de outros monstros que tais. Todos parecem saber como chegar até lá, mas o tempo excede-se, elucida e confunde, e o percurso cresce e inquieta. 

O Teatro da Rainha tem um percurso de criações para a infância realizado sempre a partir de materiais inéditos de autores cúmplices do projecto da Rainha. Os textos de Joseph Danan, Dodo, no rasto do pássaro do sonho, Jojo, o reincidente e O pequeno serial killer assim como Dois Narizes num mar de Plástico, de Fernando Mora Ramos, são exemplos disso. Desta vez o ponto de partida é um convite feito a Cecília Ferreira, dramaturga premiada pela SPA - tem já publicado um conjunto de textos, nomeadamente Rua da Alegria e A acompanhante - que, além de ter mestrado em literaturas modernas é licenciada pela ESMAE, tendo do teatro uma noção interior.

O que distingue esta criação, ser encomenda, é também integrar uma equipa nova - em experimentação de si mesma. Assim, as jovens actrizes que a constroem, e a cenógrafa, realizam primeiras experiências profissionais, associando-se à escritora que, pela primeira vez, verá uma sua criação para a infância levada à cena.

 

De Dois narizes num mar de plástico ao planeta vinil

Temos vindo, de modo cada vez mais cuidado, a realizar “espectáculos” para a infância. Pesamos que é uma responsabilidade nossa. Não o fazer seria - e acontece em muitas cidades deste país - discriminar essa faixa etária.

A imaginação aprende-se, escreve-se com gramáticas próprias. É um exercício de rigor e libertação, de apreensão do mundo e de crescimento interior. Escrever, imaginar, é poder associar o inesperado, descobrir ligações entre sentidos, sons, ritmos e cores, tudo num tempo e espaço próprios, é aceder a um modo de domínio do real, passar de sujeito passivo a sujeito activo.

A caixa do teatro é esse espaço de magia, laboratório de invenções. As ficções concretas, materiais, feitas com corpos que agem entre si e cenários, objectos pintados e volumes, luzes e sons, podem ser reficcionadas pelos meninos e meninas. Eles partem para outras hipóteses, recriam o que lhes foi proposto através de uma visão própria que deve ser estimulada, em busca de uma singularidade de cada um, uma pessoa por cabeça.

Os mecanismos poderosos de formatação comportamental encontram na caixa do teatro um momento em que são questionados, há outras coisas para além dos infinitos games e narrativas propostos pela indústria, com as suas soluções agressivas, competitivas, as suas formas de sedução para fazer funcionar um mundo que, pelo contrário, não deve correr sem que o parem, deve ser diagnosticado, criticado, necessitamos de outro caminho.

O futuro, as crianças, serão os mais directamente interessados nisso.  

Exercitar a imaginação, mas exercitar o contrário de pô-la acriticamente a serviço da engrenagem que leva o mundo para o desastre, exercitar o que seja outra possibilidade de vida no planeta, imaginar como poderia ser se não fosse a destruição ambiente que caracteriza estes tempos, de oceanos de plástico, de derrames de petróleo nos mares, de envenenar das terras para produzirem até à exaustão alimentos artificiais, de desmatamento do pulmão do mundo, a Amazónia.

É recente a conciência da generalização destes problemas como tragédia planetária e ambiental. Parte da humanidade — e a ciência — sabe isso isso, a outra parte continua a dizer que as alterações climáticas são um mito. A percepção de que tal acontece é empírica, quem viveu já umas décadas sabe disso, que havia quatro estações, que o clima não era tão instável, que não havia este medo de que o mar cresça com os degelos e nos leve a terra firme, que os furacões eram menos frequentes e que as férias eram parecidas com algo mais regular, menos inesperado.

Quando fizemos Dois narizes estávamos conscientes de fazer um caminho em direcção a estes problemas, torná-los conscientes não pela via de um didactismo que não é próprio da ficção teatral, mas de outras linguagens.

Com a peça da Cecília Ferreira, uma extraordinária imaginadora, continuamo-lo. Agora a temática alarga-se. Se antes falámos de parte — da tragédia do plástico invasor — agora falamos do todo. E diz a Cecília que nem pela Porta do Fundo do Mundo nos safamos da Extinção, um monstro, se não agirmos a tempo. Não há planeta B como nos vinis há lado A e lado B, com aliás vêm dizendo os milhares de jovens que por todo o mundo se têm manifestado.

Sendo um alerta ecológico, indirectamente, a peça de Cecília Ferreira é um exercício artístico, é teatro, é uma narrativa que suscita a imaginação também na perspectiva da resolução de problemas que são de todos, também dos mais pequenos. É pela via do prazer da imaginação aplicada que podemos construir alternativas